
Era uma vez um homem que se chamava Sahúli. Era cego e tinha dois
filhos que se dedicavam à caça e andavam com uma espingarda.
Um dia, os filhos foram caçar para a região deserta e levaram
o pai, para que guardasse a carne. Quando chegaram, montaram o acampamento
e partiram para a caça.
O pai ficou sozinho e começou a ouvir atrás de si: nji!nji!
Eram passos de uma pessoa. E Sahúli disse:
- Sê benvindo, amigo!
O que tinha chegado, respondeu:
- Obrigado, amigo! E perguntou a Sahúli:
- Ó amigo! De que é que sofres? Estás cego dos olhos
ou do coração?
Sahúli respondeu: - Os olhos estão cegos! O coração,
cá dentro, está são!
O outro voltou-se: - Então diz: "Claridade"!
Quando Sahúli disse claridade, os seus olhos abriram-se e viu o homem
sentado à sua beira. Sahúli preparou um pouco de tabaco, acendeu-o
e deu-o ao amigo. Depois, os dois começaram a arrumar o acampamento:
foram à lenha, foram à água, varreram, fizeram comida.
E tudo ficou em ordem. Por fim, aquele que tinha vindo, disse: - Ó
amigo! Estás cego dos olhos ou do coração?
Sahúli respondeu: - Estou cego dos olhos. Então, diz "Escuridão"!
Disse o amigo. E Sahúli disse escuridão e deixou logo de ver.
Quando os filhos chegaram ao acampamento ficaram muito admirados e perguntaram:
- Quem arrumou tudo isto? Sahúli contou-lhe o que se tinha passado,
que tinha recuperado a vista por instantes. Os filhos disseram-lhe então:
- Se esse amigo voltar, quando ele te pedir para dizeres escuridão,
tu não dizes e em vez disso, vais dizer claridade. E vamos ver o
que acontece! Fez-se noite e eles deitaram-se. E de manhã lá
foram para a floresta caçar. O pai, mais uma vez, ficou no acampamento
até que voltou a ouvir: nji!nji! Sahúli disse-lhe: - Sê
bem vindo, amigo. O outro responde-lhe: - Obrigado amigo! E perguntou-lhe:
- Ó amigo! De que sofres? Dos olhos ou do coração?
Sahúli disse: - Estou cego dos olhos! E o amigo pede-lhe para ele
dizer " Claridade".
Sahúli, mais uma vez, disse a palavra e os seus olhos abriram-se.
Sahúli preparou novamente um pouco de tabaco, acendeu-o e ofereceu-lho.
Depois de o terem fumado, começaram a fazer o trabalho deles.
Sahúli não se tinha esquecido do conselho dos filhos. Tirou
comida e ofereceu-a ao amigo. E tudo correu bem até ao fim. Até
que o outro se preparava para ir embora e perguntou a Sahúli:
- Ó Sahúli! Estás cego dos olhos ou do coração?!
Ele respondeu dizendo:
- Os olhos estão cegos! O coração está são!
E o outro:
- Ora diz "Escuridão"! Mas, Sahúli, lembrando-se
do que os seus filhos lhe tinham dito, respondeu:
- "Claridade". E eis que ele continuou a ver! O amigo pegou numa
mezinha que trazia consigo, aplicou-a nos olhos do Sahúli e eles
ficarão sãos.
Despediram-se, fizeram cargas de carne para
o outro e ele partiu. Quando os filhos voltaram, ficaram muito alegres por
verem que o pai tinha recuperado a vista. Deixaram o acampamento e foram
para a aldeia, onde os receberam com muitas palmas.
Fonte: Odisseia 2000
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